11 de Dezembro de 2006

Madonna X Madonna

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Coluna Pelos Nossos Olhos

Madonna X Madonna

O mundo pop, ou das paradas de sucesso, é competitivo e altamente instável. A fama e reconhecimento são difíceis de conseguir e quando se consegue mais difíceis ainda de se manter. Imagine então estar nessa batalha por mais de 20 anos? Esse é o caso, raro, de Madonna. Ela reina absoluta nesse meio porque aprendeu como ninguém, a sobreviver às mudanças e a se adaptar a elas. Assim como mudam os tempos e as modas, assim devem ser criadas novas maneiras de se apresentar, ainda que na essência, continue-se a mesma.

Em tempos de artistas que criam hits instantâneos como Kylie Minogue ou Nelly Furtado, passando por Justin Timberlake ou Eminem a Beyoncé, Missy Elliott, The Pussycat Dolls ou Black Eyed Peas, Madonna tem que, literalmente, rebolar para conseguir se destacar. Não que seja algo tão difícil assim para uma artista tão criativa quanto ela. Só que a questão aqui não é tanto originalidade e sim seguir certas fórmulas para atingir o nº 1 dos hits. Em relação a todos os citados, é suficiente criar um refrão extremamente pegajoso, do tipo que facilmente ficará na sua cabeça o dia inteiro, bastando para isso ouvi-lo uma única vez e, voilá, no meio da música acrescentar o vocal rap de algum cantor, de preferência um legítimo negão rapper americano, para dar o toque de “atualidade e atitude” que esses tempos tão pouco criativos pedem. Mesmo que isso faça com que a música se pareça com a do concorrente. Não importa, filmando um belo clipe, com roupas colantes, muitas caras e bocas e sexualidade gratuitamente à flor da pele, o sucesso está garantido!

Nesse panorama, Madonna resolveu seguir suas próprias fórmulas de se manter no centro das atenções. Deixando de lado o não tão bem sucedido ato de rebeldia contra o sistema que American Life queria propor – de uma forma bastante original e diferente – ela optou por simplesmente chamar a todos para dançar. Sem compromissos, restrições ou vergonhas. E deu certo.

Confessions On A Dance Floor, lançado no final de 2005, passeou bonito pelas paradas de sucesso e foi a base de uma estrondosa turnê, a Confessions Tour, que lotou estádios em vários países do hemisfério norte. O mundo, para Madonna, em relação a público, ainda se restringe na linha acima do Equador. Lá ainda existem pecados a se expiar. Então é lá que ela vai se confessar.

Entre algumas “fórmulas Madonna” de se fazer hits há uma infalível: iniciar uma canção de maneira lenta e aí explodir em acordes, como em Like A Prayer, Express Yourself, Secret, Frozen ou American Life. Essa última, aliás, apresentava uma “novidade”, a tentativa frustrada de inclusão de um rap, falado pela própria. Todavia, indiferente ao sucesso ou fracasso que suas músicas direcionadas às paradas podem obter, a diva segue suas regras de criação quando quer atingir o hit parade. Madonna, dessa vez em versão disco, acrescentou à sua maneira de criar hits uma inspiração direta, a cantora australiana Kylie Minogue. Também uma produtora de hits fáceis, Kylie criou, à sombra da rainha Madonna, uma maneira própria de se representar. Isso atraiu a atenção sempre aguçada de Madonna, e lá se foi a diva trabalhar sua mais nova fonte de inspiração. Do estilo de vestir ao jeito das poses para fotos, Madonna claramente procurou “homenagear” Kylie., intitulando-a como a princesa do pop, título esse que foi aceito de bom grado. O mundo pop também tem seus camaradas.

Você pode gostar ou não de COADF, mas não se pode negar que esse é o álbum mais conciso de Madonna desde Ray Of Light. Enquanto American Life atirava para todos os lados com sua atitude folk, COADF é música para as pistas, para dançar sem muito pensar. Não existem grandes filosofias autorais nas letras, nem controvérsias nas mensagens. Madonna olhou para o passado e recriou um outro sucesso seu, o formato de disco non-stop, assim como You Can Dance, de 1987. Mirwais Ahmadzai, o produtor idealista de Music e American Life, participou pouco de COADF. Em seu lugar, foi chamado Stuart Price, que já acompanha Madonna desde sua turnê Drowned World Tour, de 2001. Entre filosofia para se pensar ou beats para dançar, Madonna optou pela descompromisso artístico de Stuart. Ela queria atingir as massas, não as elites pensantes.

Stuart Price é alguém muito interessante para Madonna. Ele possui muitos nomes, assim como ela; como DJ e remixer, ele é Jacques Lu Cont. Como produtor musical, atende por Les Rythmes Digitales, ou como bandleader, ele é Zoot Woman. Junte-se a isso a característica que Price tem de reverenciar a música dançante dos anos 70 e 80 de um modo pop que somente ele consegue capturar. Isso bastou para Madonna saber em qual direção ir. Confessions On A Dance Floor é uma colcha enlouquecida de retalhos musicais da disco music, da euro-dance e electro-pop com alguns toques de French dance do início dos anos 90. Ufa!

E direto do túnel do tempo não vieram apenas os ritmos que seriam trabalhados. Músicas inteiras serviram de “base” para as canções de COADF. O álbum não se apóia apenas em samples (uma moda em voga dos artistas já citados) mas também nas harmonias e instrumentos usados por grandes nomes do passado. Sim, o que parece é que COADF é um álbum de remixes mixados uns nos outros, da mistura das misturas, algo novo poderia se criar… Ou não, porém não podemos esquecer que temos o “fator Madonna”, uma artista com mais de 20 anos de estúdio e estrada, e um tino para o sucesso incomparável. Da era disco, a nova roupagem que Madonna iria adotar seria uma persona retrô, de maiô rosa e enormes óculos escuros. Até bem pouco tempo, em Music e American Life, Madonna estava trilhando o caminho underground, ao lado de Mirwais; agora, ao lado de Stuart, ela é uma dancing queen.

Apoiando-se em momentos de tensão e explosão, como na “fórmula Madonna” de compor, COADF se apresenta com Hung Up, a primeira faixa, que tem sample (declarado) do grupo sueco ABBA. Uma música pop que fala da separação de uma garota e um rapaz, martelando uma linha de teclado da música Gimme Gimme Gimme do início ao fim. Get Together, uma euro-dance anos 90, baseia-se em Stardust, um sample que Madonna já havia namorado em sua apresentação de Holiday na DWT de 2001. A canção filosofa brevemente sobre a ilusão do amor à primeira vista. Sorry é “filha” do grupo The Jacksons, e é a primeira das canções com “atitude Kylie”. Trata-se de um ultimato de uma garota que não suporta mais o jeito que seu homem é. Hum, no mundo pop, boy loves girl e girl loves boy, mas às vezes, as coisas não dão certo. Para Madonna elas dão. Donna Summer e Giorgio Moroder, cantora e produtor de sucesso dos anos 70 aparecem em Future Lovers, a primeira canção que aponta alguma esperança em relação ao amor entre o tal boy e a girl. Apesar de toda a roupagem disco dance que COADF possui, suas letras estão recheadas de reflexões rasas sobre as vicissitudes da vida a dois, ou da vida de superstar, ou da vida de qualquer um.

E se Madonna decide seguir um caminho, ela vai até o fim. Querer fidelidade de uma linha artística musical pode ser uma boa base para se criar canções, mas ao mesmo tempo pode causar um efeito contrário e fazer com que todas as músicas se pareçam demais umas com as outras. Isso pode cansar. Porém, propondo reverenciar toda uma era, ela e Stuart abusaram ao máximo das cordas tão comuns nos arranjos disco. O uso do vocoder para alterações no timbre de voz também é bastante explorado. São tantas as auto-referências que Stuart Price se auto plagia e usa o mesmo despertador do remix de What You Waiting For? De Gwen Stefani para Hung Up. Haja receita pronta!

Depois de garantidos os futuros hits das pistas com as 3 primeiras faixas, parece que Madonna e Stuart tentaram relaxar e fugir um pouco do repetitivo esquema de criação. A electro-rock I Love New York é a única faixa que lembra, de verdade, a Madonna criadora, debochada e irreverente. Curiosamente, essa canção já existia desde a época da Re-Invention Tour, de 2004, e talvez por isso pareça totalmente fora de contexto da linha de COADF. Mas não deixa de ser aliviante. Jump então surge como um exercício estilístico, mais livre de ranços antigos e baseia-se em uma envolvente linha de baixo e sintetizadores. Porém Madonna logo volta a olhar demais o passado e apresenta Isaac, uma Frozen repleta de pizzicatos de cordas e murmúrios. O restante do álbum não mostra nada realmente novo em matéria de criação musical. Fielmente, todas as demais músicas apresentam referências por demais explícitas de hits de outros cantores. As faixas extras lançadas nos singles, Super Pop, Fighting Spirit e History não chegam a empolgar, já que não mostram qual linha de raciocínio Madonna queria seguir para compô-las. São boas canções pop, porém fora do contexto do álbum.

Mas se Madonna usa em excesso suas referências e suas influências, isso não quer dizer que necessariamente ela está criando algo que não seja bom. Enquanto Confessions On A Dance Floor não apresenta nada realmente surpreendente em matéria de criação artística e musical, essa é a mais nova estratégia que Madonna sacou para se manter no topo. E se você duvida de que ela seja capaz disso, pense duas vezes. Até mesmo o plágio de si mesma, com Madonna, é melhor do que qualquer novidade entediante dos hits de rappers nos dias de hoje.

Jack Morais
por Jack Morais, colunista do MInsane

8 respostas

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  1. paty disse,
    12 de Dezembro de 2006 @ 03:14

    como sempre, Jack Morais, um arraso!

    Parabéns!

    bjos

    Paty

  2. Nathália disse,
    12 de Dezembro de 2006 @ 09:20

    Ótimo texto que fala abertamente sobre o que Madonna fez em seu último cd, explorando cada música em seu essencial…
    Parabéns!!!!

  3. Daniel disse,
    12 de Dezembro de 2006 @ 13:55

    Achei muito lúcido o texto do blog. Ele expõe de maneira crua e realista quem é a Madonna de hoje no cenário pop em que ela ainda comanda. O texto não é 100 % escrito de maneira indiferente. Vê-se que o autor é um Madonnamaníaco, mas (volto a repetir) é de uma lucidez que supreende.
    Mas, como isso é um blog, acho-me no direito de fazer uns comentários, não do texto, mas do mito Madonna em si. Todos os dias agradeço o dia em que Madonna e Mirwais se trombaram pela primeira vez. Desde então, Madonna tem me agradado de maneira singular. Desde “Music” tenho escutado os seus ábums copiosamente. Madonna tinha que sair da fase chata, feia e sem graça de Ray of Light. Como a própria Érika Palomino já disse, me deu vontade de pegar todo o material que eu tinha de Madonna e colocar num baú e deixar mofar. Quando vejo as entrevistas da época de Ray of Light me dá uma vontade de sair correndo. Enfim, para mim, Madonna estava chatérrima. William Orbit foi, é e semrpe será “out”. Já Mirwais. Music e American Life foram um estouro aos meus ouvidos. E quem apresentou Madonna a Stuart foi Mirwais. COADF foi, é e sempre será um “boom” para os meus pés sedentos por batidas sofisticadas. Não classifico um cd de bom ou ruim tendo como medidor o número de cópias vendidas senão Kelly Key, Kalypso e outros pseudo-seres seriam merecedores de alguns méritos. E quando eu digo mérito, eu não me refiro ao Grammy, já que pra mim, assim como o oscar, o verdadeiro valor da música (ou do cinema) não é realmente julgado nessas premiações. Madonna nunca ganhou o grammy de melhor álbum?? Ótimo!! Quando vejo alguns vencedores desse prêmio e vejo o que eles representam hoje na múisca, agradeço por Madonna não compartilhar do mesmo título. That’s it. This is what I do think. Like it or not.

  4. rogerio disse,
    12 de Dezembro de 2006 @ 18:08

    otimo!gostei.mas vou meter o dedinho bom eu em particular achei que faltou um sigle para o coadf a musica issac uma das melhores do cd ficou muito bom mas faltou mais balanço hung up e mais animada acho que terian que seguir esse conseito espero que o proximo seja bem dance mas ficou muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito bom amo essa mulher a cada dia te amooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo !!!!!!!

  5. Átila disse,
    12 de Dezembro de 2006 @ 21:55

    Jack,

    meu parceiro de coluna! U-hu! Estreando no Blog, puro luxo!
    E Madonna pode se repetir 10.000 vezes, que eu aplaudo felicíssimo!
    Imagine se ela resolvesse refazer a Blond Ambition? Ou uma nova versão do álbum LAP? Imagina ela resolvendo voltar ao Brasil novamente? Repete, Madonna! Repete que a gente gostaaaaaaa!!!! Bjos a todos, parabéns a nós por mais esse espaço!

  6. Rosalin disse,
    12 de Dezembro de 2006 @ 22:54

    Parabéns Jack! Como sempre, com seus textos que nos prendem atenção do início ao fim, nos leva agora a um entendimento mais detalhado sobre as idéias, os ideais, mudanças, planejamentos e estratégias de Madonna para manter-se sempre visível aos nossos olhos sem perder a legitimidade.

    Sucesso, querido!
    Beijos!

  7. Jack Morais disse,
    13 de Dezembro de 2006 @ 03:06

    Obrigado a todos que escreveram! Fiquei até lisonjeado com a presença de vocês, com o fato de terem lido todo o texto, parado um pouco para escrever um comentário. Hum, isso é muito bom! É um trampo e tanto escrever uma coluna, meu amigo Átila sabe do que falo. Ainda mais de Madonna que já tanto foi-se comentado, falado, discutido. Essa é minha visão do que Madonna queria ao lançar esse álbum, não precisa ser a opinião unânime, só um ponto de vista. Fico feliz que compreendam. Um grande abraço e mais uma vez, muito obrigado!
    ;-)
    JM

  8. jose filho disse,
    9 de Março de 2007 @ 18:15

    concordo e assino =======madonna a unica

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